HISTÓRIAS QUE O TEMPO NÃO FEZ ESQUECER

JOPHRA MORIER

Jophra Morier


Sou Jophra Morier

Permitam que eu os conduza a um tempo que antecede a escrita, quando os homens ainda aprendiam a decifrar os sinais da terra e do céu. Era uma época que os calendários futuros chamariam de 16.000 a.C. Eu era apenas um caçador entre muitos outros — um homem moldado pela fome, pelo frio e pela necessidade de sobreviver.

Durante quarenta e cinco anos, minha vida seguiu o ritmo das estações. Caminhei por florestas ancestrais, atravessei planícies infinitas e persegui manadas de bisões por territórios que nenhum mapa registraria. Eu não buscava revelações. Não procurava deuses. Não imaginava que o destino pudesse estar escondido sob a sombra de um simples cogumelo.
Foi durante uma caçada que o encontrei.
Entre a vegetação úmida da floresta, surgiam pequenos corpos dourados que jamais haviam despertado minha atenção. A curiosidade, essa força silenciosa que tantas vezes muda o curso da história, levou-me a experimentá-los. Não havia cerimônia. Não havia cânticos. Não havia sacerdotes ou profetas. Apenas eu, a floresta e uma escolha aparentemente insignificante.
Naquela noite, deixei de ser apenas carne.
Meu corpo estremeceu, meus ossos cantaram uma canção que não vinha de mim, e tudo que era tempo se dobrou sobre si mesmo. Vi minha infância e minha morte se olharem nos olhos. Vi memórias que ainda não haviam acontecido e recordações de futuros impossíveis. As fronteiras entre passado, presente e futuro desapareceram como névoa diante do sol.
Pela primeira vez compreendi que a realidade era muito maior do que aquilo que meus sentidos haviam me permitido enxergar.
Quando despertei, a floresta era a mesma. O céu continuava acima de mim. O vento ainda percorria as árvores. Mas algo havia mudado profundamente. Algo dentro de mim.
E agora, após dezoito mil anos observando a humanidade caminhar entre a luz e a sombra, chegou o momento de contar aquilo que vi.

Eu sou Jophra Morier.